Autoria: Marjorie Prado Junqueira de Faria

Ao ouvir sobre um projeto tão importante como o Parque Ferroviário de Itararé, eu não paro de pensar nas provocações que ele causa quando refletimos sobre o trabalho coletivo e sobre a importância da sociedade civil se articular para pensar políticas públicas que sejam efetivas, inclusivas e participativas. O TRILHO, COMO CAMINHO, nos oportuniza refletir sobre o que estamos construindo e para onde vamos. Ele é metáfora de deslocamento, de passagem, mas também de permanência e memória. E isso tem tudo a ver com patrimônio cultural.

Patrimônio cultural são referências culturais transmitidas de geração em geração, que guardam uma estreita relação de pertencimento com o território. Voltar a percorrer a ferrovia é também retomar memórias significativas. MEMÓRIAS SUSPENSAS pelo tempo, que talvez tenham ficado estacionadas, irrompem agora em movimento. O processo histórico é isso: a construção das cidades, das camadas de relações, das seleções que muitas vezes elegem o que deve ser lembrado e silenciam outras memórias. Discutir patrimônio cultural é também discutir quem conta a história, quem é ouvido e quem é silenciado e apagado.

Quando falamos em caminhos do patrimônio cultural, pensando nos trilhos que chegam ao Parque Ferroviário, precisamos lembrar que MUITAS PESSOAS CONSTRUÍRAM E PEGARAM O TREM. O valor do patrimônio está em quem projetou os edifícios, os galpões, a estética, a beleza, a utilidade. Aqui é importante destacar o papel dos arquitetos e urbanistas, que conseguem traduzir a memória em desenho e o futuro em proposta concreta. Mas o valor está também em cada trabalhador, em cada família ferroviária, nos outros operários que deram forma a esse espaço. São essas vidas que transformam tijolo em memória. Todos os que utilizaram os trens e viveram no entorno também fazem parte dessa história. São os encontros, os passeios, as festas e o brincar neste espaço. As lembranças e os afetos que circularam ali são fundamentais para compreender a memória coletiva de Itararé.

Mas PARA ALÉM DA MEMÓRIA LOCAL, precisamos compreender que este patrimônio está sendo discutido em âmbito municipal, estadual e federal. Sua importância não se limita à Itararé. O Parque Ferroviário faz parte de uma memória paulista e, ao mesmo tempo, integra a história do país. Ele conecta territórios, evidencia processos de desenvolvimento e lembra que a ferrovia foi um vetor de transformação social e econômica. Mesmo quem nunca passou por Itararé pode encontrar sentido nesse bem cultural, porque ele representa o modo como cidades inteiras se organizaram em torno da ferrovia.

O PATRIMÔNIO CULTURAL NOS CONVIDA A REVER O ESPAÇO-TEMPO. Ele é passado herdado, preservado no presente e pensado para o futuro. é importante para a memória dos que participaram, mas também para aqueles que um dia participarão: os curiosos, os visitantes, os que ainda não nasceram. O patrimônio é um convite da solidariedade intergeracional. E há também o convite da coletividade. Pensar que tipo de cidade queremos, que tipo de memória queremos cultivar. Porque o patrimônio nunca é obra de um só: ele é sempre feito a muitas mãos, como este projeto demonstra. é nesse ponto que percebemos que a técnica se entrelaça no afeto. E que o traçado arquitetônico, unido ao trabalho comunitário, faz do Parque Ferroviário um verdadeiro convite à preservação e à criação.

E ao se falar em preservação, há que se entender que PATRIMÔNIO CULTURAL é UM DIREITO. Outro convite: debate sobre direito à cidade. Um direito que atravessa temas fundamentais: meio ambiente, mobilidade, cultura e planejamento urbano. é nesse entrelaçamento que surge mais um outro caminho do patrimônio cultural, pensar a relação entre direito à cidade e direitos culturais. E a Constituição Federal reforça esse caminho institucional. O artigo 215 garante os direitos culturais. O artigo 216 define o que é patrimônio e como deve ser preservado. Esses artigos lembram que Estado e sociedade civil são corresponsáveis.

Mas reconhecimento sem política pública não basta. Reconhecimento sem recursos não sustenta. Reconhecimento sem participação não se efetiva, é preciso pensar UMA EDUCAÇÃO PATRIMONIAL INSTITUCIONAL. Isso significa que pensar políticas públicas para o patrimônio é pensar em políticas intersetoriais, articuladas entre pastas e níveis de governo. Não basta reconhecer, é preciso garantir recursos, manutenção e gestão efetiva. Porque, depois das políticas de reconhecimento, o patrimônio continua sujeito õs ações implacáveis do tempo. Outro caminho é o da educação patrimonial como prática social, percorrer ruas, visitar espaços, compreender que o território é o chão de tensões e afetos. Educação patrimonial é formar consciência de que o patrimônio é direito. E ainda, o caminho da participação social. Sem ouvir moradores, sem valorizar a memória operária e as histórias das famílias ferroviárias, o patrimônio se torna vazio. São as pessoas que dão significado todos os dias.

Ao preservarmos o conjunto ferroviário de Itararé, preservamos a memória coletiva regional do sudoeste paulista. O projeto do Parque Ferroviário amplia essa preservação, transforma paisagismo, espaço de tecnologia, de inovação, da música, do teatro, da dança, do circo, além de ser um lugar de celebração da gastronomia e o artesanato regional; a Estação Ferroviária vira espaço museológico, espaço expográfico; e o entorno em parque cultural e ambiental, com bosques, arena de eventos e áreas de convivência. Aqui, MEMÓRIA E FUTURO CAMINHAM JUNTOS. é também um exercício de requalificação urbana, um patrimônio que volta a pulsar no território, agora como espaço de convivência, de criação e de pertencimento.

Pensando no tempo, também há o deslocamento no espaço. Muitas vezes pensamos que é preciso viajar longe para encontrar história. CIDADE é UM LIVRO VIVO. Basta percorrer as ruas da própria cidade para folhear os livros de história. Preservar o patrimônio é viver a história, é viver um pouco de nós mesmos. O patrimônio nos convida a olhar para como esses bens impactam nossas memórias afetivas e nosso cotidiano. E o nosso cotidiano, quando compartilhado, revela o valor do pensamento coletivo. Foi assim que nasceu o projeto do Parque Ferroviário de Itararé: preservando memórias, mas também criando lugares de convivência e contemplação para a uma experiência coletiva.

O PARQUE FERROVIÁRIO DE ITARARÉ é UM CONVITE E UM CAMINHO A SER COMPARTILHADO. Uma experiência que nos permite pensar o passado em seu legado intergeracional, atualizado em um presente criativo e potente. Aqui, abre-se o convite do projeto que é pensar junto o que é memória e cidade. Um parque pode oferecer muito: aos jovens, aos mais velhos, õs trocas de histórias do que foi e do que está sendo. Ao falar dele, já estamos fazendo educação patrimonial. Estamos criando caminhos, reflexões, pensando no futuro, que um dia será também passado.

Agradeço à Associação Cânions Paulistas e ao coletivo de arquitetos que ofereceram tantas possibilidades nesse fio da memória, que é o próprio trilho do trem. Eles nos lembram que patrimônio é direito, é educação e é para todes. Patrimônio honra os que vieram antes de nós, dá sentido à nossa vida hoje e transmite õs gerações futuras a energia coletiva e o conhecimento. E PATRIMÔNIO CULTURAL SÓ FAZ SENTIDO COM GENTE. E é nesse encontro que o patrimônio se torna vivo.

REFERÊNCIAS

BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Art. 215 e 216. Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, 5 out. 1988. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm. Acesso em: 22 out. 2025.