Por Cleberson Carlos Ferreira da Silva, geólogo itapevense e associado da Cânions Paulistas.
Você conhece o passado da nossa região, o Sudoeste Paulista? Tem certeza? Pois você nem imagina quanta história o chão que você pisa pode guardar e o quanto isso influencia a água que você bebe, nas atividades econômicas que hoje se desenvolvem localmente e até na sua atual qualidade de vida.
Para desvendar isso, precisamos da Geologia, a ciência que estuda o nosso planeta. Ela revela como as rochas e o relevo de nossa região foram moldados ao longo das eras, dando origem às paisagens que admiramos e aos recursos naturais que hoje sustentam a nossa sociedade.
Este artigo é um convite para virar a primeira página dessa longa e profunda história. Vamos juntos explorar as fundações do Sudoeste Paulista.
Mas antes, é importante você saber que o Sudoeste Paulista é uma região composta por 32 municípios, localizados próximos da divisa do estado de São Paulo com o Paraná, como mostra a Figura 1.
Figura 1 – Localização dos 32 municípios que compõem o Sudoeste Paulista.
Apesar de hoje estar a dezenas de quilômetros de distância do litoral, as primeiras rochas da região, chamadas de embasamento, tiveram seu início como rochas sedimentares em um ambiente marinho. É provável que tenha existido aqui um mar de águas calmas, claras e quentes entre 1,8 bilhão e 850 milhões de anos atrás (Figura 2). Sabemos disso devido à presença de certos tipos de rochas e de estruturas rochosas chamadas “estromatólitos”, encontradas principalmente em Itapeva e Nova Campina. Os estromatólitos registram a presença de colônias de microrganismos primitivos, em um período em que a vida só existia nos oceanos. Os estromatólitos de Itapeva são considerados os fósseis mais antigos do estado de São Paulo e foram os primeiros descritos na América do Sul (Figura 3).
Figura 2 – Representação de como era a região do Sudoeste Paulista há mais de 1 bilhão de anos.
Figura 3 – Foto de um bloco de rocha com a presença de estromatólitos, exposta na Escola de Minas de Itapeva/SP. Cada linha na rocha mostra uma camada de crescimento dessa colônia de microrganismos primitivos, que viveram há 1 bilhão de anos.
Devido ao movimento das placas tectônicas (conjunto de placas de rochas que, juntas, formam a parte mais superficial do planeta), há aproximadamente 650 milhões de anos esse mar foi diminuindo até se fechar por completo, sendo comprimido entre dois ou mais continentes que existiam naquela época. As rochas sedimentares de então foram dobradas e, devido ao aumento da pressão e temperatura, passaram por processos que as transformaram em rochas metamórficas. Surgiram também algumas rochas ígneas, como os granitos, formados pelo resfriamento do magma no interior da crosta (Figura 4). Grande parte das empresas mineradoras da região extraem rochas formadas durante esse período, produzindo filito, calcário, talco, mármore, ouro, cobre, estanho, tungstênio, chumbo, entre outros tipos de minérios (Figura 5). Toda essa diversidade mineral contribuiu para tornar a região conhecida como a Capital dos Minérios do estado de São Paulo.
Figura 4 – Ilustração simplificada dos processos geológicos que agiram sobre a região do Sudoeste Paulista há aproximadamente 650 milhões de anos.
Figura 5 – Fragmento de uma rocha com minérios de chumbo (galena) e cobre (calcopirita), encontrada na cidade de Ribeira/SP.
Da junção desses continentes se formou um supercontinente no hemisfério Sul, chamado Gondwana (Pangeia, o supercontinente formado pela união de todos os continentes, seria formado milhões de anos depois). Naquele período, a paisagem do Sudoeste Paulista era muito parecida com a atual cordilheira do Himalaia ou dos Alpes suíços, com grandes montanhas (Figura 6). Com isso, as rochas foram aos poucos sendo erodidas (“desgastadas”), formando diferentes tipos e grandes quantidades de sedimentos. Além disso, com a diminuição da atividade tectônica, o terreno da região se tornou aos poucos mais plano.
Figura 6 – Representação de como era a região do Sudoeste Paulista há aproximadamente 500 milhões de anos.
Devido a diversos fatores, um novo mar surgiu na região há aproximadamente 400 milhões de anos (Figura 7). Os sedimentos da erosão das montanhas se depositaram nesse mar, criando imensos depósitos de areia e argila, que posteriormente se consolidaram e formaram a base da chamada Bacia Sedimentar do Paraná (não confundir com a Bacia do Rio Paraná, pois não são a mesma coisa). É nesse contexto, cujo período geológico é chamado de Devoniano, que as rochas da Formação Furnas se formaram; guarde essa informação, vamos retomá-la à frente.
Figura 7 – Representação de como era a região do Sudoeste Paulista há aproximadamente 400 milhões de anos.
No planeta como um todo, por volta de 300 milhões de anos atrás, tínhamos um novo supercontinente, o maior até hoje, Pangeia. Nesse mesmo período, em alguns lugares da região, como em Itararé e Capão Bonito, entre muitas outras cidades do interior do estado de SP, se formaram rochas que registram a presença de geleiras (Figura 8). Sim, geleiras, com icebergs e tudo, bem no meio do Sudoeste Paulista. Muitas outras camadas de sedimentos continuaram sendo depositadas, constituindo a base para o que seria posteriormente transformado em solo rico e fértil presente nas cidades de Itapeva, Itararé, Itaberá, Taquarivaí, Riversul, Itaporanga, Buri, Barão de Antonina, Campina do Monte Alegre, Capão Bonito, Coronel Macedo, Fartura, Itaberá, Itaí, Riversul, Taguaí e Taquarituba. Isso, portanto, foi essencial para tornar a nossa região uma potência agrícola nacional e referência na agricultura familiar.
Figura 8 – Representação de como era a região do Sudoeste Paulista há aproximadamente 300 milhões de anos.
De um cenário de geleiras, após algumas transições climáticas, a partir de 260 milhões de anos, a região começou a ter um aspecto desértico, com a formação de dunas de areia. Você se lembra que estávamos bem no meio de um supercontinente, o Pangeia, certo? Isso fez, portanto, com que o oceano ficasse muito distante, dificultando a chegada de umidade, transformando a região em um deserto (Figura 9). Nas cidades de Angatuba, Itaí, Paranapanema, Tejupá, Fartura, Sarutaiá, Taquarituba e Piraju encontramos rochas formadas nesse período, que demonstram estruturas de antigas dunas de areia. Essas formações rochosas são especialmente importantes por constituírem um dos maiores depósitos de água doce subterrânea do mundo, o Aquífero Guarani.
Figura 9 – Representação de como era a região do Sudoeste Paulista há aproximadamente 250 milhões de anos.
Por volta de 200 milhões de anos, Pangeia começa a se fragmentar, separando novamente o supercontinente Gondwana, ao Sul, e a Laurásia, ao Norte (Figura 10). Posteriormente, a atividade geológica de Gondwana começou a aumentar, dando início à separação da América do Sul e da África. Isso causou diversos terremotos também na nossa região, que movimentaram grandes massas rochosas e abriram fendas nas rochas existentes (Figura 11). Essas fendas seguiram estruturas que já existiam nas rochas do embasamento (aquelas que eram sedimentares e depois passaram por metamorfismo). Algumas dessas fendas foram preenchidas e conduziram grandes volumes de magma, dando origem a vulcões como os que vemos hoje na Islândia e no Havaí. Se você já ouviu alguém da região falar de “pedra capote” ou “pedra ferro”, são essas rochas vulcânicas que resfriaram no interior da Terra.
Figura 10 – Configuração dos continentes e supercontinentes após a fragmentação da Pangeia. Como se pode ver na imagem, há 195 milhões de anos a América do Sul ainda estava unida à África.
Figura 11 – Representação de como era a região do Sudoeste Paulista há aproximadamente 135 milhões de anos.
Para que fosse possível a separação entre a América do Sul e a África, as rochas do embasamento também precisaram ser fragmentadas. A força necessária para separar dois continentes veio de uma região muito profunda do planeta, a mais de 40 quilômetros de profundidade: o manto terrestre. Com essa força sendo exercida do interior para a superfície da Terra, as rochas do embasamento foram então fraturadas e soerguidas (levantadas). É por isso que quando você vai para uma praia do litoral de São Paulo, você precisa passar por um trecho de serras, que são essas rochas do embasamento que foram soerguidas e fraturadas.
Após a total separação desses continentes, por volta de 100 milhões de anos, a região do Sudoeste Paulista permaneceu relativamente estável do ponto de vista tectônico, isso é, não teve mudanças significativas quanto ao que vemos hoje. Entretanto, isso não impediu que as ações do clima interagissem com as rochas. Isso porque a fragmentação dos continentes causou dois impactos diretos para a nossa região: o soerguimento de rochas do embasamento e o aumento da umidade do ar dada a proximidade com o recém-aberto Oceano Atlântico.
Com a umidade maior, passou a chover com mais intensidade no Sudoeste Paulista. Isso fez com que, inicialmente, processos erosivos passassem a agir de forma mais intensa sobre as rochas. Com o passar dos anos, isso ocasionou uma “erosão diferenciada”, aproveitando antigas estruturas ainda preservadas nas rochas. A evolução dessas feições erosivas permitiu a formação de rios, que gradualmente foram escavando as rochas. É aqui que surgem os nossos Cânions Paulistas, que são paisagens formadas pela ação erosiva das águas das chuvas e dos rios sobre as rochas da Formação Furnas (rochas formadas no período geológico Devoniano). É assim que temos o nascimento e desenvolvimento de todos os nossos rios e cachoeiras, bem como a formação do Parque da Barreira (Itararé), Cânion do Pirituba (Itapeva), Cânion do Itanguá (Bom Sucesso de Itararé), Pedra da Minerita (Nova Campina, Figura 12), entre tantas outras estruturas do tipo na região. Outra contribuição importante da ação da água com as rochas está na formação das nossas cavernas, por exemplo, dos Parques Intervales e PETAR, que encanta pessoas do mundo inteiro e gera emprego e renda através do turismo ecológico. Essas cavernas se formaram principalmente nas rochas formadas no primeiro mar registrado na nossa região, que eu contei no começo desse artigo, e foram esculpidas pelas águas das chuvas e dos rios mais recentes.
Figura 12 – Pedra da Minerita, em Nova Campina/SP.
Foi preciso tudo isso acontecer, para que nossos ancestrais, que deixaram as suas marcas em diferentes lugares por meio das suas pinturas rupestres, a centenas ou talvez milhares de anos atrás, encontrassem aqui bons lugares para se abrigar, caçar, colher frutos e saciar a sede. Posteriormente, atraídos pelas condições da paisagem e pela abundância de recursos naturais, nossos antepassados abriram estradas, construíram pontes e fundaram as nossas cidades. Tudo feito a partir do resultado daquilo que foi criado pela natureza, começando, sobretudo, pelas rochas. E é assim, olhando para o nosso passado com cuidado, atenção e respeito, é que podemos construir um futuro mais próspero, digno e seguro para todas as pessoas. Enquanto isso, a Geologia, assim como a vida, não para.
Para você que ficou um pouco mais curioso sobre as rochas que temos aqui e quer aprender mais sobre a Geologia, vou deixar a seguir uma imagem com o mapa geológico da nossa região, assim como um quadro com uma breve descrição dessas rochas, os nomes das formações, a idade delas e as cidades nas quais elas ocorrem.
Figura 13 – Mapa Geológico do Sudoeste Paulista, feito a partir dos dados do Serviço Geológico Brasileiro (SGB/CPRM). Cada cor e cada código representa um tipo diferente de rocha. A descrição de cada código está no Quadro 1.
Quadro 1 – Descrição das principais litologias (rochas) do Sudoeste Paulista




















